Para que as raízes e as asas cheguem juntas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

EXECUTIVA BEM-SUCEDIDA

Foi tudo muito rápido. A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou. Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso Portal.
Ainda meio zonza, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas.Todas vestindo cândidos camisolões e caminhando despreocupadas. Sem entender bem o que estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou um dos passantes:

- Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório, porque tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazida para cá por engano, porque meu convênio médico é classe A, e isto aqui está me parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?
- No céu.
- No céu?...
- É.
- Tipo assim... o céu, CÉU...! Aquele com querubins voando e coisas do gênero?
- Certamente. Aqui todos vivemos em estado de gozo permanente.

Apesar das óbvias evidências (nenhuma poluição, todo mundo sorrindo, ninguém usando telefone celular), a executiva bem-sucedida custou um pouco a admitir que havia mesmo apitado na curva.
Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas de negociação, de que aquela situação era inaceitável. Porque, ponderou, dali a uma semana ela iria receber o bônus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de presidente do conselho de administração da empresa.
E foi aí que o interlocutor sugeriu:

- Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o síndico.

- É? E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?
- Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.
- Assim?
(...)
- Pois não?

A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem. À sua frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro.
Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de approach para situações inesperadas e reagiu rapidinho:

- Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva bem-sucedida e...
- Executiva... Que palavra estranha. De que século você veio?
- Do 21. O distinto vai me dizer que não conhece o termo 'executiva'?
- Já ouvi falar. Mas não é do meu tempo...

Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante currículo tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica, por assim dizer, celestial ali na organização.

- Sabe, meu caro Pedro. Se você me permite, eu gostaria de lhe fazer uma proposta. Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e andando a toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes oportunidades para dar um upgrade na produtividade sistêmica.
- É mesmo?
- Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia. Por exemplo, não vejo ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz o quê?
- Ah, não sabemos.
- Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E dispersão gera desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar virando uma anarquia. Mas nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho implementando um simples programa de targets individuais e avaliação de performance.
- Que interessante...
- É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização e um organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam resolver.
- !!!...???...!!!...???...!!!
- Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do investimento do Grande Acionista... Ele existe, certo?
- Sobre todas as coisas.
- Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo, encontrar sinergias high-tech, redigir manuais de procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de produtos alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico, por exemplo, me parece extremamente atrativo.
- Incrível!
- É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que nomear um board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração atraente, é claro. Coisa assim de salário de seis dígitos e todos os fringe benefits e mordomias de praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho certeza de que você vai concordar comigo, Pedro. O desafio que temos pela frente vai resultar em um Turnaround radical.
- Impressionante!
- Isso significa que podemos partir para a implementação?
- Não. Significa que você terá um futuro brilhante... se for trabalhar com o nosso concorrente. Porque você acaba de descrever, exatamente, como funciona o Inferno....

Max Gehringer

ELIZABETH BISHOP


Elizabeth Bishop (1911-1979) e Sylvia Plath (1932-1963) são as maiores poetisas (poetas como agora se convencionou dizer) norte americanas do século XX. Elizabeth Bishop morou no Brasil, onde chegou em 1951, quase vinte anos. Além de poemas, traduções de obras de poetas de outros países (Octavio Paz, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Mello Neto), há uma prosa muito especial em “Collected Prose”. O livro divide-se em duas partes: Persons & Places que são reminiscências sobre sua infância, a vida com uns avós no Canadá (Nova Scotia) e com outros nos Estados Unidos (Worcester, Mass.), seu primeiro emprego depois de cursar a famosa Vassar College, (fundada em 1861), um artigo sobre a pintura de Gregorio Valdes, uma introdução ao diário de Helena Morley, uma brasileira que o escreveu na virada do século XIX numa cidade mineira de extração de pedras preciosas em Minas Gerais (diário que Bishop verteu para o inglês e publicou nos Estados Unidos). A segunda parte é ficção, “Stories”. Mas as memórias não são tão ortodoxas assim traduzidas pelo gênio de Bishop.

Quando morava em Key West, Florida, leu num jornal local “Citizen” uma nota de falecimento de um senhor chamado José Chacón, 84 anos, no Mercedes Hospital, também conhecido como “Casa Del Pobre”. Antiga mansão do Señor Perro, fabricante de charutos e homem rico, doada à comunidade em 1911 para funcionar como hospital com uma dotação mensal de US$ 130.00. Abaixo da nota vinha o seguinte poema:

FRIEND?
How often have you called
Someone a friend
And thought he would be
Everything it meant?

While you were on top of the world,
With money in your hands,
They flocked around everywhere,
Even at your command.

Now that you are old and gray,
Your friends look the other way
When you meet them on the street;
Never a “Hello” when you meet.

You go home to your little room
And sit silent in the gloom,
Thinking of the once bright day,

But now you are old and alone.

But one comes to you every day
As on your bed you must lay.
He stops and takes you by the hand,
And the look on his face, you understand.

That smile on his face tells a lot
As he sits by your bed and watches the clock
Ticking the hours soflty by.
With a tear in his eyes, he says goobye.

That was a Friend to the End.

Bishop achou muito tocante tanto a nota de falecimento como o poema transcrito. Quem seria o autor e a quem as três últimas estrofes faziam referência? Seria o falecido o autor? Seria o amigo visitante um sobrinho seu e homônimo? Como ela conhecia o sobrinho, um homem abastado e dono de um bar, logo soube que este não poderia ser nem o autor nem o visitante amigo. Foi visitar o Mercedes Hospital. Levada por Miss Mamie Harris, espécie de enfermeira e faz-tudo na casa de oito quartos enormes, altos e escuros, descreve de maneira soberba a decadência da mansão, os enfermos permanentes e os que iam e voltavam com alguma regularidade. A comparação entre Miss Mamie, considerada uma espécie de santa que trabalhava lá há 30 anos sem quase nunca ter deixado a casa, com as qualidades e as idiossincrasias dos verdadeiros santos é magnífica. Uma admiração e uma profunda suspeita emanavam dela. A poeta cita inclusive São Simão Estilita que, enquanto pensava que sabia o que estava fazendo no alto de sua coluna e alegrava-se com isso, Miss Mamie, por sua vez, não tinha a mais remota idéia que o lugar onde estava e o que lá fazia precisassem ser explicados. Apesar de tratar bem os doentes e de cuidar da higiene deles o melhor que podia, era desmazelada com ela mesma tendo as sua roupas em estado lastimável. Mesmo com a ternura que tinha pelos poucos internos, Bishop não acreditava que ela tivesse entendido o poema se alguma vez o tivesse lido.

Depois de deixar uma contribuição de US$ 10.00 com Miss Mamie a poeta sai do hospital comovida e sem ter a certeza da autoria do poema nem da identidade daquele amigo até o fim.


Este texto não é um poema em prosa como os de Beaudelaire ou os de Oscar Wilde. É uma prosa poética, simples, profunda, que faz lembrar algumas construções dos “Dublinenses” de Joyce. Bishop utilizou uma nota de falecimento que viu no “Citizen” com o poema e construiu o seu texto. O que há de verdadeiro como uma reportagem ou um texto memorialístico é difícil dizer. O Señor Perro na realidade chamava-se Mr. E.H. Gato e cedeu a mansão para que funcionasse como hospital sem pagamento de aluguel por alguns anos. Mercedes era o nome da sua esposa. Miss Mamie, a enfermeira faz-tudo, uma velha senhora chamada somente de “Coletora” (a qual com sua surrada pasta preta ia de porta em porta em busca de contribuições) que, quando da visita de Bishop estava em Cuba visitando uns parentes; os internos: Mr. Sonny Cummers e seu primo Tommy Cummers; um senhor negro chamado Milton; Antoñica nonagenária em sua cadeira de balanço, cega e surda; a pequena e gordota empregada cubana com pequenos brincos dourados que contrabandeava charutos para Mr. Tommy. Quem eram estas pessoas? Verdadeiras pessoas de carne e osso ou reais pessoas saídas da imaginação poética de Elizabeth Bishop?

Dico Kremer
Fevereiro/2009

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

CHAMA INTERIOR

“Cuidar do espírito demanda acender a brasa interior da contemplação e da oração diuturnamente para que nunca se apague.
Significa, especialmente, cuidar da espiritualidade, que é a capacidade de sentir Deus a partir do coração e de vê-Lo nascer a cada momento no outro que está à minha frente.”

Leonardo Boff (1938 - )


FELICIDADE REALISTA

A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio. Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade. Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.

Mário Quintana

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Estou desolado por ver um mundo sem sentido

"Esta idéia é relevante por conter uma correção a uma importante distorção perceptual. Você pensa que o que o perturba é um mundo amedrontador, ou um mundo triste, ou um mundo violento, ou insano. Mas esses atributos só lhe são dados por você. O mundo em si mesmo não carrega nenhum sentido."

Trecho da Lição 12 do Manual para Estudantes de "Um Curso em Milagres".

domingo, 1 de fevereiro de 2009

HITCHCOCK

A vida não é um filme...

...mas, às vezes, é o que resta!

(Numa noite solitária de domingo, vendo Hitchcock, A Sombra de Uma Dúvida).

AFINAL

Você gosta de andar
buscando algo,
que afinal,
está lá atrás.
É só o passado.

Se pudesse olhar
veria que algo,
por fim,
quer se mostrar.
Está ao seu lado.

BLOGUEMOS

Então, o blog.

Eu blogo, tu blogas, ele bloga. Nestes tempos internetianos, todo mundo bloga (ou seria blogueia?)!

Como disse o filósofo: “quem não bloga, se acomoda”.

E como eu disse, Dico, um blog é um blog! e você também pode blogar, se quiser. Aproveite a carona, pelo menos deixando algum comentário seu aqui, se lhe aprazer! E sabe de uma coisa? você nem precisa ter seu próprio, pois está convidado a compartilhar este comigo, como co-autor. Mande-me, assim, algumas das suas imagens, ou o que quiser, que eu posto.

Aliás, penso em colocar aqui aquele bonito trabalho da Gui, que você acha? Ah, você irá notar que eu o destitui da dedicatória do poema. Ele realmente tem outro destinatário, como você pode ver, mas note que algo seu foi inspirador.