Para que as raízes e as asas cheguem juntas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

ELIZABETH BISHOP


Elizabeth Bishop (1911-1979) e Sylvia Plath (1932-1963) são as maiores poetisas (poetas como agora se convencionou dizer) norte americanas do século XX. Elizabeth Bishop morou no Brasil, onde chegou em 1951, quase vinte anos. Além de poemas, traduções de obras de poetas de outros países (Octavio Paz, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Mello Neto), há uma prosa muito especial em “Collected Prose”. O livro divide-se em duas partes: Persons & Places que são reminiscências sobre sua infância, a vida com uns avós no Canadá (Nova Scotia) e com outros nos Estados Unidos (Worcester, Mass.), seu primeiro emprego depois de cursar a famosa Vassar College, (fundada em 1861), um artigo sobre a pintura de Gregorio Valdes, uma introdução ao diário de Helena Morley, uma brasileira que o escreveu na virada do século XIX numa cidade mineira de extração de pedras preciosas em Minas Gerais (diário que Bishop verteu para o inglês e publicou nos Estados Unidos). A segunda parte é ficção, “Stories”. Mas as memórias não são tão ortodoxas assim traduzidas pelo gênio de Bishop.

Quando morava em Key West, Florida, leu num jornal local “Citizen” uma nota de falecimento de um senhor chamado José Chacón, 84 anos, no Mercedes Hospital, também conhecido como “Casa Del Pobre”. Antiga mansão do Señor Perro, fabricante de charutos e homem rico, doada à comunidade em 1911 para funcionar como hospital com uma dotação mensal de US$ 130.00. Abaixo da nota vinha o seguinte poema:

FRIEND?
How often have you called
Someone a friend
And thought he would be
Everything it meant?

While you were on top of the world,
With money in your hands,
They flocked around everywhere,
Even at your command.

Now that you are old and gray,
Your friends look the other way
When you meet them on the street;
Never a “Hello” when you meet.

You go home to your little room
And sit silent in the gloom,
Thinking of the once bright day,

But now you are old and alone.

But one comes to you every day
As on your bed you must lay.
He stops and takes you by the hand,
And the look on his face, you understand.

That smile on his face tells a lot
As he sits by your bed and watches the clock
Ticking the hours soflty by.
With a tear in his eyes, he says goobye.

That was a Friend to the End.

Bishop achou muito tocante tanto a nota de falecimento como o poema transcrito. Quem seria o autor e a quem as três últimas estrofes faziam referência? Seria o falecido o autor? Seria o amigo visitante um sobrinho seu e homônimo? Como ela conhecia o sobrinho, um homem abastado e dono de um bar, logo soube que este não poderia ser nem o autor nem o visitante amigo. Foi visitar o Mercedes Hospital. Levada por Miss Mamie Harris, espécie de enfermeira e faz-tudo na casa de oito quartos enormes, altos e escuros, descreve de maneira soberba a decadência da mansão, os enfermos permanentes e os que iam e voltavam com alguma regularidade. A comparação entre Miss Mamie, considerada uma espécie de santa que trabalhava lá há 30 anos sem quase nunca ter deixado a casa, com as qualidades e as idiossincrasias dos verdadeiros santos é magnífica. Uma admiração e uma profunda suspeita emanavam dela. A poeta cita inclusive São Simão Estilita que, enquanto pensava que sabia o que estava fazendo no alto de sua coluna e alegrava-se com isso, Miss Mamie, por sua vez, não tinha a mais remota idéia que o lugar onde estava e o que lá fazia precisassem ser explicados. Apesar de tratar bem os doentes e de cuidar da higiene deles o melhor que podia, era desmazelada com ela mesma tendo as sua roupas em estado lastimável. Mesmo com a ternura que tinha pelos poucos internos, Bishop não acreditava que ela tivesse entendido o poema se alguma vez o tivesse lido.

Depois de deixar uma contribuição de US$ 10.00 com Miss Mamie a poeta sai do hospital comovida e sem ter a certeza da autoria do poema nem da identidade daquele amigo até o fim.


Este texto não é um poema em prosa como os de Beaudelaire ou os de Oscar Wilde. É uma prosa poética, simples, profunda, que faz lembrar algumas construções dos “Dublinenses” de Joyce. Bishop utilizou uma nota de falecimento que viu no “Citizen” com o poema e construiu o seu texto. O que há de verdadeiro como uma reportagem ou um texto memorialístico é difícil dizer. O Señor Perro na realidade chamava-se Mr. E.H. Gato e cedeu a mansão para que funcionasse como hospital sem pagamento de aluguel por alguns anos. Mercedes era o nome da sua esposa. Miss Mamie, a enfermeira faz-tudo, uma velha senhora chamada somente de “Coletora” (a qual com sua surrada pasta preta ia de porta em porta em busca de contribuições) que, quando da visita de Bishop estava em Cuba visitando uns parentes; os internos: Mr. Sonny Cummers e seu primo Tommy Cummers; um senhor negro chamado Milton; Antoñica nonagenária em sua cadeira de balanço, cega e surda; a pequena e gordota empregada cubana com pequenos brincos dourados que contrabandeava charutos para Mr. Tommy. Quem eram estas pessoas? Verdadeiras pessoas de carne e osso ou reais pessoas saídas da imaginação poética de Elizabeth Bishop?

Dico Kremer
Fevereiro/2009

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