Para que as raízes e as asas cheguem juntas.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O PREGADOR DE BOTÕES

1. A Iniciação
Um rapaz trabalhava numa fábrica de camisas. Era mero pregador de botões, mas sonhava em ser confeccionista, isto é, desenhar e produzir suas próprias camisas. O pregador de botões era magro, descarnado, suas camisas sobravam, e as calças pareciam que iam cair a qualquer momento. O camiseiro, entretanto, era um sujeito encorpado, cujas calças mal continham a barriga e as camisas.

Um dia, como de praxe, o Camiseiro supervisionava o trabalho da equipe, e saltou-lhe um botão no meio da testa. Mal recuperado do choque, deu pela frente com o desafortunado pregador de botões, causador da mágoa que agora tranformava-se mais em profunda indignação. Como pode, este ínfimo tralha sem calças, lançar-me um projétil no meio dos olhos, tirar minha concentração, seu pulha... só pode ser um desses novatos sem-eira-nem-beira desmiolado e tudo o mais, merece uma lição este delinqüente ‘filho-de-uma-anta’ *, etc.


O esquálido pregador sofria com a máquina diabólica que lhe parecia olhar sem querer pregar nada. Porque esta merda faz só o que ela quer? Em meio ao seu desasossego, mal se dava conta da aproximação do Mestre Camiseiro, embora não se possa dizer que este passasse facilmente desapercebido.

O confronto seria trágico, não fosse a intervenção da Gerente de RH, mulher sábia e tranquilizadora , que firmemente deu um basta ao conflito, chamando cada um dos ranhetas ao canto.


- Dante, pare de pegar no pé do menino, disse ao Camiseiro, que bufava.

- Esse pulha não sabe nem pregar botões...

Eu também não sabia, na idade dele, pensou ela, mas ponderou que seria melhor mandar o rapaz para outra sessão.

No dia seguinte o ex-pregador de botões era da Manutenção das Máquinas. Ponha óleo aqui! Ponha óleo ali! Tá vendo esse parafuso? Tem que limpar e apertar! Não era tão ruim, pensou nosso herói, porém, não tão divertido como pregar botões. Estes costumavam saltar para longe, fazendo com que todo o mundo risse, principalmente as meninas. Deve ser um problema com a Máquina. Enfim, pregar botões é uma Ciência. A linha deve entrar e ser guiada pela agulha, e a máquina deve ser capaz de lacear a outra linha que corre por baixo. E o botão não pode sair do lugar.


Como a Manutenção não tomasse muito tempo, o jovem Leonardo, era esse seu nome, dedicou as horas livres para estudar a Ciência da Costura. Sua proficiência aumentou muito, graças à sua dedicação, e a Máquina passou a respeitá-lo.

Assim foi passando o tempo, mas um novo confronto entre o Pregador e o Mestre seria inevitável. A Gerente de RH saiu em férias. Era a oportunidade que o bufão esperava. Num ato de pura vingança, soltou alguns parafusos, afrouxou algumas porcas, e deixou vazar um bocado de óleo. Aquele pulha me paga...

Esse Senhor Camiseiro, formado em Confecção, com Mestrado pela Alta Escola de Camisaria Fina, mal podia esperar para ver a hora em que o mundo iria desabar sobre a cabeça do jovem iniciante.


O que aconteceu, porém, foi que choveu muito. Com o dilúvio, na manhã do dia seguinte, e todo aquele óleo derramado no chão, mais a água que entrou pelas janelas quebradas e os galhos lançados pela tempestade, ficou o acesso ao interior da fábrica impraticável. Salvou-se nosso herói, já que ninguém podia distinguir o que de fato causara tamanho estrago.

O Camiseiro Crápula amargou uma derrota profunda. E sua amargura fez aumentar o ódio que nutria pelo inocente desafeto.

Com a restauração da fábrica, os novos equipamentos que chegavam para substituir os antigos, inexplicavelmente arruinados, eram imensos, bem maiores que os anteriores. Capazes de fabricar “muito mais camisas em muito menos tempo”, segundo Müller, o Gerente de Produção. Brilhantes, e cheirando a óleo novo, deixaram a todos fascinados, principalmente ao jovem maquinista. Porém preocupados. Quem vai operar isso tudo?


A Gerente de RH, Rosa Helena Olsenbach, chegando de férias, convocou a todos para uma Reciclagem. Os Gerentes estavam eufóricos, os funcionários, nem tanto. Havia apenas um problema: parece que todos os manuais que acompanhavam a maquinaria estavam escritos em uma língua ininteligível. Não havia tempo.“O Técnico instrutor manda mensagens indecifráveis, e ao que tudo indica, nunca vai aparecer”, comentou um dos gerentes. Era preciso retomar a produção, ou o prejuízo, que já era grande, seria muito maior. Assim a Diretoria, ousadamente, ordenou a instalação.


Vocês hão de pensar que seria uma grande oportunidade, para nosso jovem aprendiz, de mostrar do que era capaz, mas estão enganados. Aquelas máquinas de costurar, aparentemente, faziam tudo de uma forma muito diferente. Ninguém entendia nada, e o jovem Leonardo, frustrado, menos ainda. Foram dias de muito nervosismo.


A Benévola Rosa Helena procurava acalmar a todos, e o mefisto Dante não perdia a chance de espezinhar e destratar maldosamente a quem quer que aparecesse, menos ao Diretor Stemer, é claro, de quem tinha muito medo.


Aos poucos, porém, após muitos desentendimentos, gritarias e algumas demissões, uma jovem costureira, muito bonita e talentosa, de nome Alena, descobriu, creio que por acaso, como aquilo funcionava: era só uma questão de por onde passar a linha. A exultação foi geral. As máquinas, montadas e bem lubrificadas, voltaram a operar. A produção não só se restabeleceu como aumentou. Leonardo conheceu Alena, e voltou a pregar botões, começando aqui sua verdadeira iniciação, mas isso já é outro capítulo.

*O camiseiro cultivava eufemismos que considerava modernos e inteligentes.

2 comentários:

  1. Gostei de ver isso aqui e fiquei curiosa sobre esse novo capítulo. Vá em frente escritor!

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